— E por que você não preparou nada? Os convidados chegam a qualquer momento! — exclamou o marido, vendo sua esposa na porta.

Kira estava parada na porta, segurando pesadamente as sacolas de compras. Suas mãos tremiam levemente, e no seu rosto se misturavam surpresa e uma irritação contida. Valerij, por sua vez, andava de um lado para o outro na sala, lançando olhares nervosos para o relógio a cada instante.

— Valera… você disse que os convidados viriam no sábado — disse ela, com voz calma, mas incerta, apoiando as sacolas no chão.— Que sábado?! — gritou Valerij, os olhos ardendo de raiva. — Hoje é sexta-feira! Em duas horas Spartak e Eudóquia, meus pais e sua amiga Vlada estarão aqui! Você esqueceu completamente?!

Kira pegou o telefone para checar a data. Sexta-feira. Mas o calendário no aparelho estava silencioso — não havia nenhum indício de jantar planejado.— Valerij, você não me contou nada… Acabei de voltar do trabalho, tive uma apresentação, estou exausta…

— Não contei?! — Valerij elevou a voz ao ponto do grito, seu ódio parecia um golpe contra a parede. — Eu te falei semana passada! Você vive nas nuvens! Só pensa nesse trabalho estúpido!— Primeiro, meu trabalho não é estúpido. Segundo… você realmente não disse nada.

Eu teria lembrado! — Kira sentiu as lágrimas se acumularem na garganta, e seu coração disparou.Valerij levou as mãos à cabeça, fazendo um gesto dramático de desespero:— Deus, Kira! Por que você é tão IRRESPONSÁVEL?!Suas palavras eram como lâminas frias.

A mãe dele cancelou a viagem especialmente, Spartak e Eudóquia vieram de longe, e em nossa casa… nem uma salada estava pronta!— Tudo bem… sem pânico — tentou manter a calma, embora a voz tremesse. — Vou preparar algo agora… Nas sacolas tem carne, legumes…— “Algo”?

— Valerij se aproximou abruptamente, quase empurrando-a para a cozinha. — Minha mãe espera um jantar completo! Prato quente, entradas, sobremesa! E você propõe “algo”?Nesse momento, a campainha tocou.

Valerij ficou pálido, seu rosto perdeu toda a cor.— Já chegaram! — gritou. — É sua culpa! Abra a porta e explique por que nada está pronto!Kira respirou fundo e se dirigiu à porta.No portal, estava Milolika — mãe de Valerij,

perfeita, altiva, cabelos impecáveis — e ao lado dela Swiatogor — pai, com bigode grisalho e olhar calmo e sereno.— Kiruška — disse Milolika com voz gelada, avaliando Kira com um olhar crítico.

— Pensávamos que você já tivesse preparado tudo. Valera disse que o jantar seria às sete.— Boa noite… — Kira murmurou, tentando sorrir. — Entrem, por favor. Houve um pequeno problema, mas logo resolvo…— Problema?

— Milolika entrou no apartamento, teatralmente cheirando o ar. — Nem cheiro de comida há. Valerij, filho, o que aconteceu?!Valerij correu para fora da sala, como se evitasse a responsabilidade, olhando para a mãe com olhos suplicantes.

— Mãe… desculpe… Kira ESQUECEU do jantar. Eu lembrei… mas, aparentemente, ela acha que seu trabalho é mais importante que a família.— Entendo — Milolika balançou a cabeça, com desdém. — Swiatogor, eu te disse que essa garota não é para nosso filho.

Nem um simples jantar ela consegue preparar.Kira cerrou os dentes, sentindo a mistura de raiva e desapontamento. Isso era para ser sua vida, sua rotina, e cada momento era criticado.— Eu alimento seu filho todos os dias — disse ela calmamente, embora fervendo por dentro.

— E trabalho tanto quanto ele— Ah, que trabalho é esse — disse Milolika com desdém. — Sentada no computador, fazendo desenhos. Isso é trabalho? Valerij tem um trabalho de verdade!A campainha tocou novamente — desta vez Spartak e Eudóquia, amigos de Valerij.

A entrada deles não acalmou a tensão, e Valerij imediatamente tentou justificar a situação, sobrecarregando ainda mais Kira.Quando Vlada chegou com o bolo, Kira sentiu as lágrimas subirem. Avaliações constantes, críticas, ataques ao seu trabalho e personalidade… tudo de uma vez atingiu seu senso de valor próprio.

Após algumas horas, quando os convidados finalmente se acomodaram e sushi e pizza estavam na mesa, Kira sentiu algo que até então estava reprimido — raiva, determinação, autoestima.Quando Valerij a atacou novamente, algo dentro dela se quebrou:

— Sabe de uma coisa, Valery? Case-se com ela. EU ESTOU SAINDO — disse baixinho, mas com firmeza, e sua voz carregava uma força inabalável.Essas palavras foram como um raio. Ela não era mais a garota que silenciosamente suportava tudo. Era o momento de recuperar a si mesma.

Na manhã seguinte, quando Valerij acordou sozinho, com a cabeça doendo e o apartamento vazio, percebeu que havia perdido mais do que apenas a esposa. Kira encontrou sua liberdade — a liberdade de respirar plenamente, sem a constante crítica e raiva alheia.

Um mês depois, saindo do cartório com os papéis do divórcio, sentiu uma paz que há muito não conhecia. Sua vida agora era só dela.A liberdade provou ser a refeição mais preciosa que ela poderia se oferecer.

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