Depois daquela noite, demorei muito para adormecer.Deitada ao lado de Obinna, ouvia o ritmo da sua respiração — calma, constante, como se nada tivesse acontecido.
Mas na minha cabeça, as palavras que ele sussurrou não paravam de ecoar.
Que ele me viu.Que ele sabia.E que, mesmo assim, ficou.De manhã, ele acordou antes de mim. Da cozinha vinha o aroma do café moído na hora e o som suave de sua voz, cantarolando.
Quando entrei, ele sorriu — com aquela naturalidade tranquila,
como se o mundo não tivesse virado de cabeça para baixo.Mas para mim, tudo já era diferente.— Desde quando… exatamente… você pode ver? — perguntei, sentindo a voz tremer.
— Há três meses — respondeu serenamente, como se falasse do tempo.
— Não completamente. As imagens ainda são turvas, como através de uma névoa. Às vezes vejo apenas cores, outras, contornos.— Então… você me viu aquele dia, à beira do rio? — sussurrei.Ele assentiu.— Vi. Lembro-me do pôr do sol.
A tua sombra dançava sobre a água. E foi ali que pensei… que até uma sombra pode ser bela.Não soube se devia rir ou chorar.Passei a vida temendo o momento em que alguém realmente me veria.E ele o fez. E não fugiu.
Alguns dias depois, ele me surpreendeu outra vez.— Quero pintar o teu retrato — disse numa tarde.— Está brincando? — ri, nervosa. — O meu retrato?
— Não tenha medo. Não será sobre as tuas cicatrizes. Será sobre você.
Tentei recusar, mas Obinna, como sempre, foi teimoso.E acabei aceitando.Todos os dias, quando o sol entrava pela janela, eu me sentava na cadeira e ele, com o pincel na mão, olhava para mim em silêncio.
No começo, não suportava o peso do seu olhar.Parecia que cada toque dos seus olhos reabria antigas feridas.Mas com o tempo, algo mudou.O olhar dele não trazia pena — trazia ternura. Uma ternura que não doía, que curava.
Depois de uma semana, o retrato estava pronto.Ele pediu que eu me sentasse, cobriu a tela com um lençol branco.Meu coração batia descompassado.Quando ele levantou o tecido, fiquei sem ar.
No quadro, não havia cicatrizes.Nem uma mulher perfeita, inventada.Havia eu — de olhos fechados, como se escutasse uma melodia que só eu podia ouvir.
Um leve sorriso nos lábios, e ao meu redor, um brilho — vindo de dentro, não de fora.
As lágrimas vieram sozinhas.— Essa… não sou eu — murmurei.— É sim — respondeu ele. — É assim que eu te vejo. E é assim que quero que você se veja também.Naquele dia, pela primeira vez em anos, olhei-me no espelho sem medo.
E talvez soe banal, mas vi algo novo.Não a garota com cicatrizes.Não a vítima do destino.Mas a mulher que sobreviveu.Os meses passaram.Obinna recuperou quase toda a visão, voltou à música. Tocava, dava aulas, inspirava crianças.
Eu o ajudava com as partituras, preparava o chá, organizava as aulas.Às vezes ouvia murmúrios pelas costas:— É aquela moça das queimaduras.Mas já não me doía. Eu sabia quem era.Uma noite, voltando de um recital dos seus alunos, ele segurou minha mão.

— Sabe — disse —, um dia pensei que ver fosse um dom. Depois, que a cegueira fosse uma maldição.Fez uma pausa.— Agora entendo que ambos são apenas ferramentas. O que importa de verdade está aqui. — Colocou a mão sobre o coração.
Sorri entre lágrimas.— E eu achava que o amor nunca me encontraria. Que ninguém aceitaria entrar no meu mundo.— E agora, o que pensa? — perguntou.— Que o amor me encontrou quando eu parei de procurá-lo.
Um ano após o casamento, organizamos uma pequena celebração na escola de música.Obinna tocou uma nova composição que havia escrito para mim.Chamava-se “Luz sob a pele”.
As crianças tocaram junto, e eu fiquei ao seu lado,
ouvindo a melodia que parecia contar toda a nossa história.Em dado momento, ele se aproximou do microfone.— Esta canção é para a mulher que me ensinou que ver não é o mesmo que olhar.O público se levantou. Aplausos encheram a sala.
E eu senti as lágrimas escorrerem — lágrimas de pura felicidade.Aquela noite, em nosso pequeno apartamento, sentamos à janela — como antes, quando ele pintou meu retrato.As luzes da cidade brilhavam lá fora.
Ele me olhou, os olhos quase totalmente curados, e disse em voz baixa:— Sabe, quando te toquei pela primeira vez, achei que nunca veria o teu rosto.— E agora? — sussurrei.— Agora vejo tudo. E não mudaria nada.Adormeci tranquila.
Porque, pela primeira vez desde o acidente, não temi o amanhã.Às vezes as pessoas me perguntam como é viver com cicatrizes.Eu sempre respondo o mesmo:— As cicatrizes não são algo que carregamos *sobre* nós, mas *dentro* de nós.
Elas nos lembram que sobrevivemos.E quando alguém me olha hoje — eu não desvio o olhar.Não me escondo atrás do cabelo, do lenço ou do silêncio.Porque sei que sou amada.Não apesar das minhas feridas.Mas com elas.
E talvez seja por isso que — pela primeira vez em muito tempo — eu realmente vejo o mundo.Assim como Obinna me viu.Não com os olhos.Mas com o coração.
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