Naquela noite, quando ela deixou de ter medo.

Eliza ficou imóvel, como se de repente o tempo tivesse parado. Um zumbido metálico, prolongado e agudo, ecoava em seus ouvidos — o mesmo som que faziam as televisões antigas quando a imagem desaparecia e restava apenas a tela estática, cheia de ruído branco.

Tudo dentro dela congelou. Não sentia raiva, embora devesse. Não sentia dor, embora ela se escondesse logo abaixo da pele. Sentia apenas o vazio — silencioso, pesado, frio como a neve recém-caída lá fora.

— Quem é ela? — perguntou por fim, quase num sussurro, como se tivesse medo de que a resposta destruísse de vez o pouco que ainda restava do seu mundo.

Mark mudou o peso do corpo de uma perna para a outra, evitando seu olhar. — Anna. Do departamento de marketing. Trabalhamos juntos num projeto. Aconteceu… meio que por acaso.

Eliza ergueu o canto dos lábios num gesto que tentou ser um sorriso, mas que mais parecia uma careta de dor. — Por acaso? — repetiu, com ironia. — É assim que falam os que planejaram tudo há muito tempo.

Mark permaneceu em silêncio. Seu olhar vagava pelo chão, como se procurasse entre as tábuas palavras que pudessem salvá-lo.

Eliza virou-se lentamente em direção à janela e afastou um pouco a cortina. Lá fora, a neve caía devagar, girando sob a luz amarelada dos postes. No vidro refletia-se a imagem da casa deles — quente, acolhedora, cheia de lembranças.

Um lar que, instantes antes, parecia seu refúgio seguro, e que agora não passava de um palco vazio depois de uma peça encerrada.— E o que você vai fazer agora? — perguntou sem se virar.— Amanhã eu me mudo. O advogado vai cuidar de tudo.

Eliza voltou a cabeça, devagar. Em seu olhar já não havia lágrimas, apenas uma lucidez fria e cansada. — Você resolveu tudo bem depressa, — disse em voz baixa. — Nem pensou que eu poderia dizer não?

— Só quero que tudo aconteça de forma tranquila, — respondeu ele num tom burocrático, distante, o tom de um funcionário, não de um marido. — Sem dramas.

Ela o encarou diretamente. — Tranquila? Você destruiu tudo o que construímos juntos e fala em tranquilidade?Mark suspirou, deu de ombros e se levantou. — Sinto muito.

A porta se fechou suavemente, quase sem ruído, mas o som pareceu cortar o ar como uma lâmina. Eliza permaneceu parada, olhando o vazio, sem sentir o passar do tempo. O aroma do ensopado que esfriava misturava-se ao cheiro úmido da neve trazida pelos sapatos.

Por fim, aproximou-se da mesa. Pegou a taça de vinho da qual Mark havia bebido e terminou o resto. O líquido vermelho deixou em seus lábios um gosto amargo. — Então, Anna… do marketing… — murmurou, como se quisesse guardar aquele nome para nunca mais esquecê-lo.

Meia hora depois, já estava sentada diante do laptop. A luz fria da tela iluminava seu rosto — pálido, concentrado, desperto, como se tivesse acordado de um longo torpor. Digitava antigas senhas, abria pastas esquecidas há anos.

As lembranças voltavam com uma facilidade surpreendente. Nos tempos da universidade, ela escrevia trabalhos para outros, traduzia textos, passava noites acordada tomando café forte e acreditando que o mundo ainda estava à sua espera.

Agora precisava lembrar-se de quem fora antes dele.Seus dedos começaram a bater no teclado com rapidez crescente. Na tela surgiu um novo e-mail:

“Prezados Senhores,  encaminho meu currículo para a vaga de professora de língua alemã…” Ela clicou em “Enviar”. Depois fechou o laptop, afastou a cadeira e olhou seu reflexo na janela.

Diante dela estava a noite — silenciosa, fria, cheia de incertezas.A manhã seguinte chegaria sem Mark.Mas, pela primeira vez em muito tempo, Eliza não sentia medo. Sentia que, finalmente, começava a respirar de verdade.

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