No silêncio da noite, saí para levar o lixo. O saco de plástico pingava de maneira repugnante, algum líquido pegajoso escorria pelo meu velho robe gasto. Eu já deveria ter feito isso antes, sem esperar até a meia-noite, mas o dia tinha sido longo e exaustivo.
Primeiro, as pequenas e cansativas birras de Katjuska, e depois… Gleb. O genro. O “genro perfeito”.O pátio escuro me recebeu com um cheiro misto de mofo úmido e gases de escapamento. Apenas uma lâmpada antiga piscava sobre a entrada, destacando sombras deformadas no breu da noite.
Quase chegando às lixeiras, avistei o carro dele. O robusto SUV preto de Gleb não estava na vaga iluminada habitual, mas sim à sombra de um velho carvalho torto, quase se fundindo com a escuridão.
Algo não estava certo. Instintivamente, congelei, segurando o saco de lixo contra o corpo. A tampa do porta-malas estava aberta, e Gleb estava inclinado para dentro, como se seu corpo tivesse se quebrado em três partes.
Mas ele não estava sozinho. Ao lado, uma menina magra de cabelos loiros despenteados estava parada, vestindo uma blusa de esporte simples, inquieta, passando o peso de um pé para o outro. Mesmo a vinte passos de distância, pude ver que ela mordia o polegar.
Gleb se ergueu, soltando um suspiro alto de esforço. Segurava um grande pacote, envolto em várias camadas de plástico preto.Era visivelmente difícil entregar o pacote à menina.— Anda logo — ouvi uma voz surda e impaciente, desprovida de qualquer cortesia.
Juntos, de maneira desajeitada e apressada, tentavam colocar… algo… no carro. O pacote resistia, prendendo-se no estofado do banco.
Naquele momento, tudo ficou claro para mim. Não suspeitava, não imaginava — eu compreendi. Vi toda a cena como se estivesse sendo promenade num filme diante dos meus olhos. Do mesmo jeito que ele tirou Larissa de casa, a primeira esposa,
que “foi embora para outro lugar”, deixando apenas um bilhete curto, em caligrafia perfeita — escrita por Gleb. Ninguém investigou. Por quê? Um marido encantador, enlutado…
O pacote tinha o tamanho de um corpo humano, e o peso também correspondia.Recuo para a sombra da entrada. O saco de lixo escorregou das minhas mãos, caindo com um som abafado no asfalto molhado.
Gleb se virou abruptamente ao ouvir o barulho. Nossos olhos se encontraram por segundos. Em seu olhar não havia surpresa, nem medo. Apenas raiva fria, calculista, e uma ordem silenciosa: cale-se.
Ele bateu com força a tampa do porta-malas. O estrondo ecoou pelo pátio adormecido. A menina deslizou para o banco do carro sem olhar para trás.O carro partiu silenciosamente, fundindo-se à escuridão da noite.
Fiquei parada, imóvel. O asfalto frio penetrava pelos meus chinelos finos, mas eu não sentia nada.Na minha mente, uma única ideia martelava, tirando o ar da minha respiração: Ele não apenas esconde algo. Ele elimina as evidências antes de atacar a próxima vítima.
E a próxima vítima seria Katjuska. Não me lembro de como cheguei ao apartamento. Como girei a chave três vezes na porta e encaixei o trinco de segurança.
Minhas mãos tremiam; eu não conseguia encher um copo de água. Ele escorregou e caiu no tanque com um estrondo. Só sentia o vazio e o terror congelante.Deveria chamar a polícia? O que dizer? “Bom dia, a meu genro Gleb está colocando algo parecido com um corpo no carro?”
Eles me tomariam por louca. Gleb Voroncov tem reputação impecável: caridade, negócios de sucesso, amigos nas mais altas esferas.Tudo planejado com antecedência. Sempre.Na manhã seguinte, ele mesmo ligou. Voz alegre, afetuosa:
— Irena Petrovna, bom dia! Dormiu bem? Katjuska e eu passaríamos para almoçar, tudo bem?Meu coração deu um salto. Eles viriam. Ele viria.— Claro, venham — sussurrei, tentando controlar o tremor.
— Alguma coisa com a voz? Pegar frio? Quero trazer limão? — A voz dele era falsa, nauseante. Como se uma aranha estivesse observando suas presas.
Em menos de duas horas, eles chegaram. Katjuska tagarelava sobre alguma bobagem, Gleb entrou na cozinha com uma sacola de compras.— Pensei em mimar vocês. Vamos fazer salada, assar carne. Você descansa, Irena Petrovna.
Então começou a cortar os vegetais, com minha própria faca, na minha tábua de cortar, de costas para mim.— Katjuska disse que foi dormir tarde ontem. Não dormiu bem?Ele não se virou. O som da faca batendo era rítmico, como marteladas no caixão.

— Sim, não dormi muito — murmurei.— Acontece. Às vezes a mente nos prega peças. Principalmente quando está escuro, com as luzes piscando… Parece que o perigo espreita em cada canto.
A faca parou. Gleb olhou por cima do ombro, fixando-me com o mesmo olhar frio da noite, agora com um toque de escárnio.— O mais importante é não confundir fantasia com realidade. Podemos nos machucar, ou machucar outros. Katjuska é sensível.
Deve ser protegida. De todos. De tudo.Tentei falar com minha filha enquanto Gleb saía para “tomar ar fresco” na varanda.— Katjuska, me escute…— Mãe, não comece — rosnou, franzindo a testa. — Vejo que está de mau humor de novo. Sempre que Gleb aparece, você reclama.
— Não é isso! Ele é perigoso!— Perigoso? Por quê? Porque me ama? Porque se importa mais com você do que com seu próprio filho? Mãe, você simplesmente não consegue aceitar que eu sou feliz! Ela não via nada. Estava cega.
Fiquei sem palavras. Qualquer coisa que eu dissesse seria usada contra mim. Eu seria a velha invejosa tentando arruinar a felicidade da filha.
O almoço passou embaçado. A salada, preparada pelo assassino, eu coloquei no garfo e forcei um sorriso. Gleb contava histórias engraçadas, Katjuska ria, mas sua risada soava como um sino fúnebre na minha cabeça.
Quando se foram, Gleb parou no corredor, deixando Katjuska ir à frente.— Irena Petrovna, perdeu algo ontem?Ele estendeu a mão. O saco de lixo da noite anterior estava ali, cuidadosamente amarrado. — Caiu na entrada. Peguei. Não é certo jogar lixo.
Ele sorriu encantadoramente. Nesse sorriso, vi a sentença de morte. Para mim. E para minha filha.
O medo é estranho. Primeiro paralisa, depois, quando se torna constante, recua para o fundo da mente. Como o som da chuva na janela. Você se acostuma.
Comecei a observar. Tornei-me uma sombra. Escutava suas conversas, vigiava seus passos, seus encontros. Minha vida transformou-se em um thriller, com a vida da minha filha como prêmio.


