— Eu não fui contratada para tomar conta do seu filho! — declarou a sogra. Na manhã seguinte, os filhos da cunhada dela ficaram sozinhos.

— Não estou aqui para tomar conta do seu filho — declarou Ludmila Viktorovna.

Marina segurava o telefone junto ao ouvido e, por alguns instantes, simplesmente não conseguiu dizer nada. Um silêncio angustiante tomou conta da cozinha. Gyenis estava ao lado dela e, como o telefone estava no viva-voz, ouvira cada palavra.

— É só por uma semana — tentou Marina novamente. — Mudaram meu turno. Só estou pedindo que, durante uma semana, você busque Artjom na escola.

— E eu não sou babá de graça — respondeu a sogra, de imediato.

Marina afastou lentamente o telefone do ouvido. Olhou para o marido.

Gyenis apenas deu de ombros e virou-se para a janela.

Naquele momento, Marina ainda não sabia que aquelas poucas frases mudariam tudo.

Embora, dois anos antes, a situação tivesse sido completamente diferente.

Durante dois anos inteiros, Marina foi praticamente todos os dias úteis à escola buscar os filhos de Oksana, sua cunhada. Tjoma e Vika estudavam na mesma escola que seu próprio filho, Artjom.

Ela os levava para casa, dava comida, ajudava com a lição de casa e ficava com eles até Oksana terminar o trabalho.

E Ludmila Viktorovna?

Sua sogra morava a apenas doze minutos a pé da escola. Estava aposentada havia três anos.

Mesmo assim, não houve uma única vez em que ela tivesse ficado com as crianças sequer por uma hora para substituir Marina.

— Ludmila Viktorovna, esta é a primeira vez que peço sua ajuda — disse Marina, em voz baixa.

— Eu também tenho a minha própria vida — respondeu a mulher, friamente. — Resolva isso entre vocês.

A ligação terminou.

A mão de Marina não tremia. Apenas apertou o telefone com um pouco mais de força.

Gyenis aproximou-se e colocou o braço em volta dos ombros dela.

— Ela não falou por maldade — tentou defender a mãe. — Talvez simplesmente esteja cansada de tantos anos cuidando dos netos.

Marina afastou-se lentamente.

— Que netos, Gyenis? — perguntou. — Ela nunca ficou em casa nem uma única vez com o seu filho.

O marido não respondeu.

Virou-se novamente para a janela.

Como se houvesse algo muito mais importante acontecendo lá fora.

Naquele dia, Marina resolveu tudo sozinha. Saiu do trabalho duas horas mais cedo, foi buscar Artjom, levou-o para casa, preparou o jantar e depois o colocou para dormir.

No caminho, o menino contou animadamente sobre a aula de ciências na escola.

Marina sorria e assentia.

Mas, na verdade, só conseguia pensar em uma coisa.

Ela estava contando.

Não dinheiro.

Não horas.

Mas os dias em que ficara no portão da escola ao lado de Tjoma e Vika, enquanto a própria avó das crianças estava em casa, a apenas doze minutos dali.

E quanto mais contava, mais difícil ficava fingir que nada estava acontecendo.

No dia seguinte, Marina estava novamente diante do portão da escola.

Como sempre.

Tjoma saiu correndo primeiro, seguido por Vika, com a mochila torta sobre os ombros.

Marina ajeitou a mochila da menina e segurou sua mão.

— Tia Marina, hoje a vovó vem nos buscar? — perguntou Vika.

Marina ficou em silêncio por um instante.

— A vovó está ocupada — respondeu finalmente. — Como sempre.

A frase saiu mais amarga do que ela gostaria.

A menina, porém, não entendeu.

Correu em direção aos balanços.

Marina ficou olhando para as crianças.

E, pela primeira vez, pensou claramente:

Isso não pode continuar.

—

Dez dias depois, ela ainda buscava Tjoma e Vika na escola como antes.

Por fora, nada havia mudado.

Por dentro, porém, tudo era diferente.

Antes, ela ajudava porque gostava de Oksana e sentia pena das crianças depois do divórcio.

Agora, cada tarde passada depois da escola começava a parecer uma conta.

Certo dia, Marina pegou o telefone e abriu suas anotações.

Escreveu:

Dois anos.

Depois, abaixo:

Aproximadamente quatrocentos dias de escola.

Quatrocentas vezes em que ela foi buscar as crianças.

E a sogra, nenhuma.

Nem mesmo quando Marina lhe pediu diretamente.

No sábado, Oksana foi pessoalmente buscar as crianças. Como agradecimento, levou sorvete para todos.

As duas mulheres estavam sentadas na cozinha, tomando chá. Gyenis havia saído para a varanda, deixando-as sozinhas.

— Marina… você não está cansada? — perguntou Oksana inesperadamente. — Dá para ver que ultimamente está difícil para você.

— Estou. Um pouco — admitiu Marina. — Nesta semana mudaram meu turno, então pedi à sua mãe que ficasse com Artjom por apenas um dia. Ela não aceitou.

Oksana colocou a xícara sobre a mesa.

— Você sabe que minha mãe não gosta de cuidar de crianças.

Marina olhou para ela.

— Artjom é o próprio neto dela.

Oksana desviou o olhar.

— Ela é assim — disse finalmente. — Você também conhece o jeito dela.

— Duas vezes? — perguntou Marina. — Não. Três vezes pedi ajuda a ela em dois anos. E nas três vezes ela disse não.

Oksana não respondeu.

E Marina já não esperava nenhuma explicação.

À noite, contou tudo ao marido.

— Minha mãe realmente é assim — disse Gyenis. — Você sabe disso.

— E eu estou há dois anos buscando os filhos da sua irmã — respondeu Marina. — É estranho que isso seja normal para você, mas quando se trata do seu próprio filho, de repente vira problema de todo mundo.

Gyenis abaixou a cabeça.

Não disse nada.

E naquela noite Marina já sabia:

Não faria aquilo para sempre.

Três semanas depois, tudo virou de cabeça para baixo de maneira inesperada.

Uma colega de trabalho ficou com febre e pediram a Marina que permanecesse mais tempo no trabalho.

Marina imediatamente mandou uma mensagem para Oksana.

“Vou me atrasar no máximo quinze ou vinte minutos.”

Mas Oksana estava justamente em uma reunião com um cliente. Não viu a mensagem.

No fim, Marina atrasou-se uma hora e meia.

Quando saiu da clínica, pegou um táxi e praticamente entrou correndo no pátio da escola.

Mas o pátio estava vazio.

O coração de Marina falhou uma batida.

Ela deu a volta no prédio e então viu o porteiro.

— Tjoma e Vika? Onde estão?

— A avó veio buscá-los — respondeu o homem. — A professora ligou para ela. Ela também está na lista de contatos para emergências.

Marina ficou imóvel.

Ligou imediatamente para Ludmila Viktorovna.

— Obrigada por buscá-los — disse, com a voz trêmula. — Sinto muito, eu realmente não esperava me atrasar tanto.

— Eles ficaram esperando uma hora e vinte minutos no frio! — explodiu a sogra. — Uma hora e vinte minutos, Marina! Vika estava chorando. A professora levou água para ela.

— Eu mandei uma mensagem para Oksana, mas ela não respondeu…

— Oksana me ligou da escola! — interrompeu Ludmila. — Você tem ideia do que poderia ter acontecido com duas crianças em uma hora e meia?

Marina fechou os olhos.

— Eu sei. Eu errei.

— Sim. Você errou.

A ligação terminou.

Marina ficou muito tempo parada no pátio vazio da escola.

Seu estômago se contraiu quando imaginou as duas crianças sozinhas, chorando e com frio.

Ela não tentou se justificar.

Mas naquele momento algo dentro dela se rompeu definitivamente.

Naquela noite, Gyenis já sabia de tudo.

Sua mãe havia ligado para ele primeiro.

— Minha mãe está completamente transtornada — disse o homem ao entrar em casa. — Ela diz que você colocou as crianças em perigo.

— E se um dia Artjom tivesse ficado sozinho diante da escola? — perguntou Marina. — Ela teria corrido para buscá-lo tão rápido assim?

Gyenis ficou em silêncio.

— Sabe o que realmente dói? — continuou Marina. — Durante dois anos, todos os dias, eu estava lá por aquelas crianças. De graça. Sem reclamar. Enquanto sua mãe morava a doze minutos da escola.

— Mas agora estamos falando das crianças.

— Exatamente. Das crianças. E por isso eu não vou mais cuidar delas.

Oksana tomou a iniciativa de fazer uma videochamada em família.

“Vamos conversar todos juntos, porque isso não pode acontecer novamente.”

No domingo à noite, os quatro estavam diante da tela.

Marina, Gyenis, Oksana e Ludmila Viktorovna.

— Quero entender como isso aconteceu — começou Oksana. — As crianças ficaram muito assustadas.

— Também me sinto muito mal por isso ter acontecido — disse Marina. — E assumo meu erro.

Então fez uma breve pausa.

— Mas, já que estamos todos aqui, também quero dizer uma coisa.

Oksana ficou tensa.

— Há dois anos sou eu quem busca seus filhos na escola — continuou Marina. — Aproximadamente quatrocentas vezes. Quatrocentas vezes fui buscá-los.

— Marina, não estamos falando disso agora…

— Estamos, sim. Justamente agora.

A voz de Marina continuava tranquila.

— Uma única vez me atrasei uma hora e meia. Uma única vez. E por isso todos me culpam. Mas ninguém contou quantas vezes eu ajudei vocês durante esses dois anos.

Ludmila Viktorovna apertou os lábios.

— Agora você está tentando se vingar de mim usando as crianças? — perguntou.

— Não — respondeu Marina. — Estou simplesmente terminando algo que ninguém nunca me pediu oficialmente, mas que acabou se tornando uma obrigação que todos consideravam natural que eu cumprisse.

Então olhou para a sogra.

— A senhora disse: “Não estou aqui para tomar conta do seu filho.” Eu nunca vou esquecer isso.

Fez uma pequena pausa.

— Pois bem, eu também não estou aqui para tomar conta dos filhos dos outros de graça.

A tela ficou em silêncio.

— Não vou mais buscar Tjoma e Vika na escola — declarou Marina. — A partir de hoje, vocês terão que encontrar outra solução.

Oksana olhou para ela, chocada.

— Você está falando sério?

— Completamente.

Então Marina abriu o aplicativo do banco e transferiu novecentos rublos para Oksana.

— É para o táxi. Enquanto você encontra alguém que possa buscá-los.

— Você está me mandando dinheiro?

— Esta é a minha última ajuda.

— Você simplesmente vai abandonar meus filhos?

Marina balançou a cabeça.

— Não estou abandonando ninguém. Apenas não vou mais resolver por vocês aquilo que vocês deveriam resolver.

Ludmila Viktorovna desligou a câmera.

Oksana ainda ficou olhando para Marina por alguns segundos e então saiu da chamada.

Gyenis permaneceu sozinho com a esposa.

— Acho que você foi longe demais — disse baixinho.

Marina olhou para ele.

— Não se pode tratar as pessoas dessa maneira usando as crianças — continuou o homem.

— E foi permitido fazer isso comigo através do meu filho? — perguntou Marina. — Pedi ajuda três vezes com Artjom. Três vezes disseram não.

Gyenis não conseguiu responder.

Marina fechou o laptop.

O quarto ficou subitamente silencioso.

E, pela primeira vez em dois anos, ela não precisou pensar em que horas teria de correr até o portão da escola no dia seguinte.

Seis meses se passaram.

Oksana finalmente contratou uma vizinha que, em troca de pagamento mensal, busca as crianças na escola.

Ludmila Viktorovna não fala diretamente com Marina. Quando quer dizer alguma coisa, manda recado através do filho.

Gyenis visita a mãe sozinho nos fins de semana.

E, naturalmente, os parentes criaram suas próprias versões da história.

Alguns diziam que Marina “usou as crianças como arma”.

Outros achavam que ela deveria ter avisado com antecedência.

Outros ainda diziam que ela nunca deveria ter cuidado dos filhos dos outros gratuitamente durante dois anos.

Marina ouviu tudo.

Mas já não discutia.

Porque, finalmente, à noite, não precisava correr até o portão da escola.

Não precisava adaptar sua vida aos horários dos filhos de outras pessoas.

Não precisava pensar em quem assumiria aquilo que todos haviam simplesmente passado a considerar responsabilidade dela.

E às vezes, quando se deitava em silêncio à noite, lembrava-se daquela frase:

“Não estou aqui para tomar conta do seu filho.”

Agora ela sabia exatamente o que aquela frase significava para ela.

Não significava que uma avó tivesse obrigação de ser babá.

Significava que, quando alguém pede ajuda, precisa aceitar o “não”.

Mas o contrário também é verdadeiro:

Quem ajuda voluntariamente durante dois anos tem o direito de, um dia, dizer:

“Agora chega.”

E talvez a questão nem seja saber se Marina errou ao anunciar sua decisão naquela videochamada familiar.

A verdadeira questão é: quantos anos mais ela deveria ter passado em silêncio suportando aquilo que ninguém mais queria assumir?

Visited 13 times, 1 visit(s) today
Scroll to Top